

programa:
de pé, diante de um púlpito e de um microfone apoiado em um pedestal, a performer, depois de um dia passado em jejum e silêncio, inicia uma conferencia a respeito do tema: “interstícios entre voz e palavra, o discurso verbal como a fala de um Outro, a expressividade e suas armadilhas”. Ao seu lado, estão enfileiradas 18 garrafas de dois litros de água. Enquanto fala, a performer vai enchendo e engolindo copos de água: a cada copo esvaziado, ela deve encher um novo; cada garrafa vazia deve ser substituída por uma nova. Enquanto durar a conferencia, a performer não pode parar seja de falar, seja de beber água – deve intercalar as duas ações interrompendo-as o mínimo possível. A cada vez que a performer deixar extravasar quaisquer espécies de fluidos do seu corpo, através de vômito, fezes, saliva, urina, choro ou suor, deve bater sua cabeça sobre a mesa. A performance termina no momento em que a performer se mostrar incapaz seja de beber água, seja de continuar seu discurso.
durante a apresentação, no x festival de apartamento, em barão geraldo, campinas, o trabalho teve diversas interferências do público. um espectador invadiu o espaço para dar um beijo na performer. outros, para levar embora as garrafas cheias para impedir que ela as tomasse. outros ainda para trazer as garrafas de volta para que ela pudesse continuar. durante o trabalho, a performer vomitou continuamente e ingeriu mais de 15 litros de água.
"os animais morrem sem ter pronunciado uma única palavra."
(tânia pescarini)
Cada ação escolhida, um gesto de soberba; cada conseqüência, uma possível penitência. Pode-se levar um golpe dolorido de um salto alto ao tentar proteger uma dançarina cega. Pode-se escolher olhar de longe e levar um empurrão súbito. Do jogo entre soberba e penitência, cria-se o campo da ação na práxis, o campo da relação, o campo do possível.